O sábado amanheceu nublado no Rio de Janeiro, convidando que a gente ficasse em casa se protegendo da covid-19 e maratonando, voto por voto, o desenrolar da novela que as eleições americanas se tornaram. Ao lado das minhas companheiras de isolamento, a tv e a internet, eu acompanhava ansiosamente deste terça-feira os milhares de comentários, opiniões, previsões e memes que tentavam prever o final daquela uma disputa tão acirrada, que finalmente chegaria ao fim com a vitória do septuagenário Joe Biden e sua midiática vice Kamala Harris. Numa eleição que contrapôs não apenas republicanos e democratas, mas visões de mundo tão opostas, a vitória de Biden foi uma notícia que fez todo o mundo civilizado respirar aliviado. No lado oposto, Donald Trump, ícone da extrema direita violenta e reacionária, finalmente foi demitido.

Nos dias que separaram a tensão da espera da festa da vitória democrata, nós fomos aprendendo pela mídia onde fica o Winsconsin, Nevada e a Geórgia, e claro, deixamos de lado o Amapá sem energia elétrica. Em meios as aulas de geografia norte-americana, pudemos também celebrar um bom punhado de boas notícias, sendo algumas delas muito significativas para a comunidade LGBTI+. Informações da GLAAD, uma organização de defesa dos direitos de gays, lésbicas, bissexuais e transexuais, apontam que ao menos 35 de um total de 574 candidaturas LGBTI+ foram eleitas em todos os Estados Unidos. Os destaques, por minha conta, são Sarah McBride, a primeira mulher transgênero eleita para um senado estadual, e Kim Jackson, pastora episcopal e lésbica eleita pela Geórgia, o estado que até pouco tempo atrás era um símbolo para o imaginário supremacista branco, inclusive entre os racistas brasileiros.

E falando em Brasil, é bom lembrar que em poucos dias teremos eleição por aqui também. Em 2020 vamos às urnas para escolher os prefeitos e vereadores de mais de cinco mil cidades, num momento em que a política nacional e a sociedade brasileira ainda não acertaram o passo. Mas desde já, podemos celebrar alguns avanços: neste pleito o número de candidaturas que militam pela causa LGBTI+ será recorde! Segundo levantamento da Aliança Nacional LGBTI+ (os tribunais eleitorais não coletam este tipo de informação), teremos 522 candidatos assumidamente LGBTI+, além de outros 63 candidatos aliados à nossa luta. Só por comparação, em 1996, o primeiro ano do levantamento, foram apenas 8 candidaturas.

Dentro desse recorde, a maioria dos candidatos é de homens gays: 47%, mostrando que o desafio de incluir mulheres na política também perpassa nossa comunidade. Entre as candidatas, 13% se declaram lésbicas e 12% mulheres trans. 97% são candidatos a vereador. Porém, a comemoração de verdade só deve acontecer depois da contagem dos votos, que felizmente é muito mais rápida aqui do que lá, para conferir então quantos dos nossos candidatos serão de fato eleitos. Apesar do número expressivo de candidaturas LGBTI+, o preconceito e o conservadorismo são barreiras pesadas que geram muitas dificuldades àqueles que disputam a arena pública, desde o risco de violência até a falta de acesso a verbas para fazer campanha.

De todo modo, o crescimento da participação de gays, lésbicas e transexuais na disputa política já é um indicador importante de que as pessoas compreenderam que a cidadania deixou de ser um direito garantido no Brasil, e a nossa segurança está em disputa, sobretudo após a ascensão de setores retrógrados da sociedade e do fortalecimento da pauta moralista no espaço público. É sabido que até agora os direitos civis dos LGBTI+ vêm sendo conquistados mediante uma parceria dos movimentos sociais de luta com o apoio expressivo do judiciário, mas a expansão de grupos reacionários nos poderes executivo e legislativo está representando um crescente risco às nossas liberdades. Justamente por isso importa tanto que as forças progressistas estejam empenhadas também em conquistar também este espaço.

Historicamente, são poucos os nomes que representaram a bandeira da diversidade na política, e o próprio sistema é construído para manter do lado de fora aqueles grupos que sempre foram excluídos do debate público, como mulheres, negros, e pessoas LGBTI+. Para tentar vencer essas dificuldades foi criado o programa #VotoComOrgulho, pensado para acompanhar, monitorar e promover a participação de candidaturas LGBTI+ na eleição de 2020, além de divulgar iniciativas que favoreçam a comunidade, e, claro, combater os discursos de ódio e as fake news. Num país conservador como o nosso, políticos LGBTI+ são o alvo preferido de ações de destruição de reputação através de notícias falsas, como ocorreu tantas vezes com ex-deputado federal Jean Wyllys.

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Jean, um homem gay que ganhou notoriedade ao participar da quinta edição do BBB, se elegeu deputado federal pela primeira vez em 2010 e foi por muito tempo a única referência inconteste de representante LGBTI+ no Congresso Nacional. Durante toda sua vida política, ele enfrentou a sanha LGBTIfóbica do parlamento e da sociedade, recebendo ataques virulentos como a divulgação maciça de declarações falsas que atribuíam a ele falas em favor da pedofilia e contra o cristianismo. Em 2018, Jean conquistou seu terceiro mandato, mas desistiu de assumi-lo motivado pelo recebimento de graves ameaças de morte. Certamente pesou em sua decisão a memória de Marielle Franco, mulher, negra, lésbica, vereadora do Rio de Janeiro, que foi brutalmente assassinada pela milícia carioca num crime até hoje não solucionado.

Na vaga de Jean, assumiu o também gay e ativista David Miranda (PSOL-RJ), num sinal claro de que mesmo com passos tímidos, a política brasileira está se tornando mais colorida. Ao lado de David, estão o senador Fabiano Contarato (REDE-ES) e o deputado federal Marcelo Calero (CIDADANIA-RJ), ambos homens gays presentes legislativo federal. Nas câmaras estaduais podemos destacar a presença das deputadas Erica Malunguinho (PSOL-SP), Erika Hilton (PSOL-SP), e Robeyoncé Lima (PSOL-PE), todas mulheres trans.

Mas obviamente ser LGBTI+ não é sinônimo de ser progressista nem de lutar pelos direitos das minorias. O ex-ginasta Diego Hypolito, que em 2016 assumiu publicamente sua homossexualidade e revelou uma série de violências e preconceitos sofridos ao longo de sua vida, também saiu candidato em 2020. Porém, ele já apareceu sorridente em fotos ao lado de Bolsonaro e declarou em recente entrevista à Veja que questões ideológicas deveriam ser deixadas de lado. Outro bom exemplo, ou melhor dizendo mau exemplo, é o já falecido Clodovil Hernandez, que foi certamente o primeiro deputado reconhecidamente homossexual do Brasil, mas se posicionava contrário ao casamento igualitário e as marchas do Orgulho LGBTI+.

Por isso, é importante ter em mente na hora de escolher os vereadores que cabe a eles discutir e aprovar leis que afetam a dinâmica das cidades e de seus moradores. Pelos legislativos municipais passam todos os projetos de lei que decidirão sobre as benfeitorias, obras e serviços para o bem-estar da população em geral, assim como aqueles projetos voltados ao suporte e proteção das minorias, como é o caso a comunidade LGBTI+. Quando são capturadas por forças reacionárias, as câmaras municipais se tornam instrumentos para institucionalização da discriminação, aprovando projetos de lei que em vez de proteger, atacam a dignidade das pessoas. Foi o que aconteceu, por exemplo, em São Paulo e João Pessoa, onde vereadores das bancadas conservadoras tentaram proibir as discussões sobre gênero e sexualidade nas escolas, impedindo ações para diminuição do preconceito, da evasão escolar e da gravidez na adolescência.

A presença de vereadores comprometidos com a causa da diversidade sexual funciona então como uma espécie de barreira aos retrocessos como essa tentativa espúria de transformar as escolas em máquinas de assédio e preconceito contra crianças e adolescentes LGBTI+. Além disso, os vereadores podem destinar verbas para a realização de projetos que favoreçam o bem-estar, a proteção e a geração de oportunidades para as comunidades minoritárias do município, sobretudo as mais vulneráveis. Um outro papel significativo da câmara municipal é o de revisar leis aprovadas na esfera nacional ou estadual, e assim determinações que possam colocar em risco a integridade e a cidadania da comunidade LGBTI+ podem ser barradas nos perímetros municipais.

Portanto, pense bem na hora de decidir o seu voto. Se não houver candidatos abertamente LGBTI+ concorrendo na sua cidade, você ainda pode escolher alguém que seja aliado da nossa causa. Tem até um site para ajudá-lo nessa busca! No dia 15 de novembro é a oportunidade de amplificar a nossa voz e eleger aqueles que estão do nosso lado, comprometidos com a luta por justiça e igualdade. Se há uma coisa que aprendi nos dias que passei aguardando o resultado da eleição americana é que todo voto conta. Então, Vote com Orgulho!