No fim de semana uma amiga comentou bastante surpresa que era primeira vez que o mês de agosto passava rápido, tanto que não havia ninguém fazendo aquelas piadas batidas sobre o mês eterno. Com um pouco de sorte, quem sabe também nos livramos das piadas de pavê quando o natal chegar. Bem, mas o fato é que desde que a pandemia de Covid-19 alterou a dinâmica do convívio social e isolou tantas pessoas em casa, nossa percepção da passagem do tempo mudou bastante, ao ponto de nem percebermos agosto passar.

Prova da intensidade desse último mês foi o noticiário agitado, contando com novas descobertas sobre a rachadinha dos Bolsonaros, uma explosão no Líbano e até neve em Santa Catarina. Mas o que aqui nos interessa são duas notícias específicas, que a primeira vista não tem nada de comum entre si, mas que estão direta ou indiretamente ligadas ao dia dos pais, comemorado em agosto no Brasil pelo menos desde 1950. A primeira foi a escolha de um homem trans para estrelar um comercial sobre paternidade real. E a segunda, a triste história de uma menina de 10 anos violentada pelo tio e que enfrentou o ataque irado de extremistas religiosos quando se submeteu a um procedimento de aborto legal. Os dois casos tão diferentes entre si, falam muito sobre as nossas percepções acerca da maternidade e da paternidade, e o quanto definimos a primeira como compulsória e a segunda como facultativa.

Pessoalmente, nunca me senti confortável falando sobre este assunto, sobretudo porque tive uma relação marcada pelo distanciamento com meu pai, mas também porque, pelo menos na maior parte da minha vida, não tinha pensado em ter filhos. Contudo, as reações tão violentas que esses dois casos geraram são um claro sinal de que precisamos falar muito mais sobre paternidade e de como estamos distantes de alcançar a desconstrução do machismo, que, através de seu viés paternalista, nos mantém reféns de uma masculinidade hegemônica e de uma paternidade dominadora.

Logo no primeiro caso, os cidadãos de bem espumaram ódio e preconceito nas redes sociais quando a Natura lançou sua tradicional campanha do dia dos pais e colocou Thammy Miranda, um homem trans, como estrela ao lado de outros caras bem conhecidos, como o Henrique Fogaça e o Babu Santana. As reações foram as já conhecidas e exageradas quando qualquer marca faz um aceno à comunidade LGBTI+, com muito preconceito disfarçado de opinião, pastor pregando boicote, e uma infinidade de tweets tentando intimidar a marca de cosméticos com avisos de que quem lacra não lucra. “É um desrespeito aos pais, daqui uns dias será crime ser homem hétero, a destruição da figura masculina está a mil…” twittou um dos homens ofendidos pelo comercial, demonstrando claramente que a questão toda não é bem sobre paternidade.

Eu bem me lembro dos tempos de escola, quando fazíamos aquelas colagens com cartolina e palitos para presentear nossos pais, e sempre uma professora lembrava que aqueles que não tivessem pai poderiam presentear alguém que representasse esse papel em suas vidas. O alerta da professora não era um mero gesto de cortesia para um ou outro aluno cujo pai não estivesse mais vivo, mas sim uma necessidade para atender a multidão de crianças para as quais a figura paterna simplesmente não existia. Segundo o Conselho Nacional de Justiça são mais de 5,5 milhões de brasileiros que não tem o nome do pai no registro de nascimento, e o número fica ainda mais impactante se analisarmos os dados de 2015 do Instituto Data Popular de que 31% das 67 milhões de mães brasileiras criam seus filhos sozinhas. São, portanto, 20 milhões de mães solo. Um indício inegável de uma verdadeira epidemia social de abandono paterno.

Isso é tão comum porque nessa sociedade patriarcal o lugar do pai é uma posição de poder e não de responsabilidade ou cuidado. O menino aprende desde pequeno que cuidar da casa ou dos filhos é brincadeira e tarefa das meninas. Por isso nós homens não nos constrangemos por não registrar nossos filhos ou por não contribuir com seu sustento, e ainda muito menos pela nossa ausência afetiva. É também por isso que o comercial com Thammy Miranda incomoda tanto, pois ao apresentar um homem transexual como pai, a Natura está questionando os privilégios masculinos e afirmando que estes são uma construção social e não uma característica biológica.

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Claro que uma contestação frontal aos privilégios do macho causaria barulho, mas apesar de tudo, o mercado aprovou a ação (por motivos também de Pink Money) e as ações da Natura tiveram forte valorização, enquanto Thammy continuou a vida amando, educando, e brincando com seu filho nascido no início do ano.

Já a segunda notícia é muito mais triste, embora não incomum. Uma menina de 10 anos, moradora do Espírito Santo, engravidou após ser abusada pelo tio. A lei prevê o aborto legal em casos de estupro, mas a criança precisou percorrer um novo calvário para ter seu direito assegurado. O caso foi parar na justiça, que acabou garantindo a interrupção da gravidez, mas nesse meio tempo a história ganhou as manchetes dos principais jornais do país e atraiu os protestos de um grupo de religiosos cristo-fascistas que, motivados por interesse e hipocrisia, foram à porta do hospital empunhando bíblias e rosários para impedir a realização do aborto. O caso, tenebroso por si só, ganhou contornos ainda piores quando veio à tona que pessoas ligadas à pastora e ministra dos direitos humanos estavam pressionando a família pela não realização do aborto, inclusive vazando os dados da criança abusada como forma de coação.

Integrantes do Fórum de Mulheres de Pernambuco, preocupadas em defender a justiça e a segurança da menina, expulsaram os manifestantes fanáticos da porta do hospital. Mas outros atores importantes da sociedade civil mostraram que os direitos da mulher ainda são um tabu e um desafio no Brasil. A conferência dos bispos católicos, bastante silente frente aos retrocessos democráticos e humanitários do atual governo, decidiu emitir nota contra o aborto e a favor da vida. Os pastores, que antes boicotavam a Natura, agora saíram em combate contra a assassina de 10 anos. Até um padre e uma professora foram às redes sociais questionar a inocência da criança, culpando-a pelo estupro que sofreu nas mãos de um homem adulto e exigindo que, uma vez culpada, assumisse a criação do filho. Uma criança criando outra.

Essa é mais uma manifestação da ausência e da violência machista que coloca a inteira responsabilidade de uma gravidez sobre as mulheres, até mesmo quando elas são crianças ou quando foram violentadas. A maternidade é vista como uma obrigação, um dom compulsório, irrecusável, e a gravidez como uma produção exclusivamente feminina. Os mais intolerantes sugerem até mesmo que a mulher que não deseja filhos deve abster-se de sexo. Ao passo que numa sociedade doentiamente machista, a paternidade segue sendo facultativa, e ao homem sempre será garantido o direito de abandonar ou ignorar um filho. E até mesmo quando ele é um estuprador, lhe será garantido o benefício da dúvida de que talvez tenha sido seduzido por aquela mulher ou por aquela criança.

A imagem do pai homem cis, branco, forte, e amável, tão cristalizada nos comerciais de margarina é a que muitos preferem ver nas campanhas promocionais. Contudo, essa imagem é apenas uma idealização, e os pais típicos de margarina são uma exceção no patriarcado. Lutar para manter esse modelo como padrão ajuda apenas na manutenção de privilégios e não na reflexão sobre o real papel esperado dos homens (pais ou não) em uma sociedade menos violenta, menos autoritária e mais justa. Sabemos que a sociedade construída sobre o patriarcado não estimula que os homens assumam papéis de responsabilidade e de não dominação dentro da família. Mas também sabemos que nós homens, como seres pensantes que somos, temos a plena capacidade para desconstruir esse conjunto de preconceitos e privilégios que nos cerca. Até porque, o atual cenário traz pesados custos para todos, e as mulheres já se decidiram pelo fim deste absurdo.