Já faz alguns meses, num tempo em que nem se falava de isolamento social ou corona vírus, que eu e uma amiga alugamos um carro e fomos conhecer Vassouras, cidade no interior do Rio de Janeiro, conhecida por seus casarões do tempo do império. Enquanto visitávamos fazendas, igrejas e praças tirando fotos para alimentar o Instagram, encontramos um lugar inesperado: o Centro Cultural Cazuza.

Um jovem e simpático guia nos apresentou aquele museu de grandes novidades, que anos atrás havia sido a casa de Lucinha Araújo, mãe de Cazuza, e hoje funciona como centro de memória de um dos mais icônicos e festejados poetas do rock nacional. Como não poderia deixar de ser, durante àquela visita passamos por fotografias, manuscritos e figurinos que contam a vida de Cazuza, mas também a sua precoce morte aos 32 anos, em decorrência de uma das doenças que mais assustaram o mundo: a Aids.

Nos anos 80, quando a epidemia surgiu, a morte era o destino comum das pessoas que se infectavam com o HIV, pois não havia medicamentos acessíveis e eficazes para tratar uma doença que comprometia todo o sistema imunológico do paciente. Era uma dura realidade que a maioria de nós só conhece através de filmes, como os americanos Filadélfia e Clube de Compras Dallas, ou o longa brasileiro Cazuza – O Tempo Não Para, sobre a história daquele que foi a primeira personalidade do país a assumir publicamente que era soropositivo.

A coragem de Cazuza ajudou a criar consciência sobre a doença no Brasil, mas também o marcou permanentemente. Passados 30 anos de sua morte, a cura continua sendo uma esperança, ao passo que os avanços na ciência produziram medicamentos sofisticados capazes de controlar a infecção por HIV e torná-la uma doença tratável. Esse avanço mudou completamente as perspectivas das pessoas soropositivas, ainda mais no Brasil, onde o acesso ao tratamento foi universalizado pelo SUS, e resiste mesmo com todo ataque que a saúde pública recebe. Mas também resiste o tabu que reveste esse assunto e ainda gera situações de medo, insegurança e exclusão.

É o que vemos no documentário de André Canto, Cartas para Além dos Muros – cujo título é inspirado nas crônicas de Caio Fernando Abreu contando sua vivência como portador de HIV. Costurando as histórias de mais de 30 pessoas que viveram de perto o auge da epidemia, o filme apresenta pela primeira vez a cronologia do HIV no Brasil e denuncia como o estigma e a discriminação ainda são intensos na vida de quem se descobre soropositivo.

Tanto tempo depois, a história do HIV no Brasil e no mundo permanece como um desafio para todos nós, especialmente por dois de seus mais cruéis aspectos. O primeiro é o preconceito moralista, alimentado pela hipocrisia religiosa, que classificou a Aids como uma peste gay, um verdadeiro castigo de Deus às pessoas LGBTQI+ por conta de sua promiscuidade. E é claro que nem o HIV nem a promiscuidade são realidades exclusiva das pessoas LGBTQI+, os próprios números do Ministério da Saúde mostram que, entre 2007 e 2019, mais heterossexuais foram contaminados pelo vírus HIV do que homossexuais, mas recentemente um comentarista da CNN sentiu-se confortável para expor em rede nacional seu preconceito disfarçado de opinião enquanto criticava a liberação da doação de sangue por homens gays.

O segundo aspecto cruel dessa história é a solidão. Não somente a solidão das milhares de pessoas que morreram abandonadas nos corredores de hospitais, mas também dos que vivem num obsequioso silêncio, como a personagem do livro O Segundo Armário, de Gabriel de Souza Abreu. O silêncio é a ferramenta mais forte na manutenção do preconceito, é através dele que a história fica pausada nos anos 80, na criminosa capa da Veja com o Cazuza. O silenciamento acena com a proteção necessária contra a criminalização do afeto e do contato de quem vive com HIV, mas também é uma das coisas que mais gera solidão, marginalização e morte. Infelizmente, essa resposta excludente em situações adversas é muito comum em nossa sociedade, inclusive agora com a Covid-19.

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Claro que o novo coronavírus não causa uma doença com tamanho potencial segregatício como o HIV, ele não faz as pessoas serem rejeitadas por suas famílias quando ficam doentes, nem estigmatiza os sobreviventes. Mas naquilo que impacta nosso tecido social, temos visto a repetição de muitos dos nossos piores impulsos, como o descaso com as pessoas vulneráveis e o completo desprezo por aqueles considerados grupo de risco.

O antipresidente em exercício que classifica as pessoas vivendo com HIV como despesa é o mesmo que diz “E daí?” para quem morre vítima de Covid-19. O discurso religioso/moralista que brada que o HIV é um castigo dos céus é o mesmo que chama a Covid-19 de planos de deus, num pensamento que naturaliza a morte, exclui e abandona quem está doente, como se tudo fosse um plano divino, longe das nossas possibilidades de intervenção. E sem possibilidade de intervenção, podemos lavar as mãos e garantir o teto de gastos.

Há ainda uma absurda miopia que defende isolamento vertical apenas para os idosos, mesmo com os números mostrando que todos são suscetíveis a adoecer pelo novo vírus. Ou quase todos, porque já temos também estudos evidenciando que embora a infecção pelo novo coronavírus não faça distinção de pessoas, a letalidade da doença é muito maior entre pobres, pretos, moradores da periferia, porque, para além do recorte etário, essas pessoas estão em um cenário de desigualdade no acesso à saúde e de precarização da vida. Esse é também o grupo onde ainda hoje a letalidade da Aids é maior. O tratamento está disponível, mas o acesso aos serviços de saúde e as políticas públicas de prevenção é violentamente desigual.

Repete-se aí o nosso drama, que em tempos de baixo apreço pela Ciência, com terraplanistas e anti-vacinas intervindo ferozmente no debate público, a realidade perde importância e aumenta a nossa velha demanda por bodes expiatórios. Desta vez os idosos.

Rosana Del Bianco, a médica que diagnosticou o primeiro caso de HIV no Brasil, conta em Cartas Para Além dos Muros, que a morte das pessoas LGBTQI+ em decorrência da Aids não comovia a sociedade, era como se fossem cidadãos de segunda classe, descartáveis. Hoje a morte das vítimas da covid-19 também comove pouco, sobretudo se são os “velhos que já viveram bastante”. Há algumas reações de surpresa quando morre um jovem, mas isso também passa rápido se a vítima tinha alguma comorbidade. Essa é a nossa cultura do descarte, quase eugenista, e está mais forte do que nunca. Esse nosso individualismo primitivo aceita, e até deseja, o sacrifício dos mais vulneráveis como pedágio necessário para um novo normal, repleto de tardes nos shoppings e férias em Miami.

Uma pandemia é sempre uma experiência muito dolorosa porque coletiviza a solidão, o luto, o medo. Mas eu rejeito fortemente a ideia romantizadora de que ela funcione como uma purga, como oportunidade de aprendizado. A experiência da dor, do abandono e da exclusão são constantes na nossa história, e por isso todo o aprendizado possível com essas vivências já está disponível. Cabe a nós decidir por assumi-lo ou não.