Em 2019 milhares de pessoas, mundo afora, comemoraram os 50 anos da Revolta de Stonewall, aquela que passou à história como o marco inicial do movimento pelos direitos civis dos LGBTQ+. Obviamente, já existiam outros espaços de luta pelos direitos e reconhecimento dessa comunidade, mas foi naquele 28 de junho de 1959 que a repressão LGBTfóbica por parte da polícia nova iorquina gerou uma reação inédita que eclodiu em poderosas manifestações nas ruas da metrópole norte-americana. A revolta daquele domingo tornou-se simbolicamente o ponto de partida da batalha por direitos civis da comunidade LGBTQ+, na qual vivemos até hoje entre conquistas e reveses.

Aqui no Brasil, pelo menos oficialmente, a luta começou um pouco mais tarde. Ocorre que o país vivia os tempos da ditadura militar em seu período mais duro de censura e perseguição política, tendo ainda uma mídia bastante controlada e pouco contato com o exterior. Num cenário adverso, com forte isolamento e sufocamento dos movimentos sociais, foi somente em 1978 que os primeiros militantes do movimento LGBTQ+ brasileiro iniciaram seus encontros na cidade de São Paulo e fundaram o Somos, um grupo de afirmação homossexual que anos mais tarde estaria na criação do Movimento Homossexual Brasileiro (MHB).

Desde os primeiros passos no fim dos anos 70 até a Parada do Orgulho LGBT de 2019, quando a cidade de São Paulo – novamente ela – colocou na Avenida Paulista três milhões de pessoas em marcha contra o retrocesso conservador, aconteceram muitas coisas no Brasil e no mundo que nos trouxeram a este histórico ponto de inflexão, onde temos nossos direitos civis garantidos pelas mais altas cortes de justiça ao mesmo tempo em que somos o país que mata uma pessoa LGBT a cada 23 horas, conforme denuncia o levantamento do GGB – Grupo Gay da Bahia.

Nessa linha do tempo não tão longa, mas muito agitada, posso citar como memória pessoal a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo do ano de 2004. Era a oitava manifestação realizada na cidade e a primeira em que eu participaria. Além de mim, havia outros um milhão e meio de manifestantes comemorando o fato de que seríamos reconhecidos como a maior parada do Orgulho Gay do mundo (naquela época ainda se falava tranquilamente apenas “orgulho gay”, sem nenhuma preocupação com a invisibilidade dos demais membros da comunidade LGBTQ+). Estar naquela manifestação gigantesca foi um momento divisor na minha vida de garoto gay do interior que tentava ser discreto e fora do meio. Foi a partir de lá, quando me reconheci num vasto coletivo, que o armário ficou definitivamente para trás.

No ano seguinte, o movimento catártico continuou inflando a Parada do Orgulho LGBT e dando visibilidade à luta da comunidade. A reinvindicação oficial da manifestação de 2005 foi a regulamentação da “parceria civil”, já que naquele tempo nem mesmo o movimento ousava batalhar pelo direito ao casamento igualitário, que até então só existia na Holanda e Bélgica. Para os brasileiros, foi preciso esperar até 2011 para alcançar o direito à união civil e até 2013 pelo direito ao casamento, ambas as decisões conseguidas via atuação do Poder Judiciário frente a uma convicta inércia do nosso parlamento.

Mas retornando a 2005, numa época em que a internet já era bem conhecida no país, os portais de notícia cobriam amplamente as marchas do orgulho LGBT no Brasil e no mundo, enquanto a mídia convencional mantinha-se determinadamente ausente. A Rede Globo, por exemplo, dedicou poucos segundos do Fantástico, uma revista eletrônica dominical, para registrar que no Brasil, especificamente em São Paulo, naquele domingo de 29 de maio de 2005, havia ocorrido a maior marcha por direitos LGBT+ do mundo. Muito contrastante com a efusiva cobertura dedicada à parada de 2019, quando não só a TV e os jornais, mas quase todas as grandes empresas se engajaram na causa, colorindo suas propagandas e perfis de redes sociais com as cores do arco íris.

Os avanços conquistados pela comunidade LGBTQ+ avançaram até a criminalização da LGBTfobia neste ano, mas sempre via judicial. A política brasileira, assim como parte importante de seu povo, segue conservadora e preconceituosa, cumulando com a eleição de um presidente orgulhosamente LGBTfóbico. Jair Messias Bolsonaro já sentenciou, entre outras barbaridades, que uma surra pode fazer um garoto deixar de ser gay, e vem sendo aplaudido e apoiado por segmentos religiosos que promovem uma verdadeira guerra santa pelos ditos moral e bons costumes, que não são nada além de eufemismos para preconceito.

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As eleições de 2018 trouxeram um verdadeiro choque de realidade para quem pensava que o país caminhava rumo a um modelo de sociedade mais tolerante e que a vida das pessoas LGBTQ+ poderia ser tão festiva como as marchas do orgulho. Claro que líderes políticos e religiosos com posicionamentos virulentos e preconceituosos não são propriamente uma novidade, mas foi extremamente assustador ver a quantidade de pessoas aderindo a esse projeto político preconceituoso.

Pode-se argumentar, obviamente, que a eleição de Bolsonaro foi motivada pela repulsa de uma grande parcela da população ao Partido dos Trabalhadores, e que, portanto, o pleito de 2018 não foi um referendo sobre a comunidade LGBTQ+. Embora o argumento mereça atenção, ele esconde uma rejeição da população brasileira às bandeiras das minorias. A nossa imagem de tolerância se desfaz quando vemos amigos e familiares optando por um candidato que é claramente hostil à mera existência da comunidade LGBTQ+. Assistir um pai, uma mãe, ou um amigo, escolhendo como presidente um político que afirmou explicitamente que agrediria um casal gay que se beijasse em sua frente traz uma sensação amarga de desalento e retrocesso.

Mas a novidade mais triste e perturbadora foi a dos LGBTQ+ que apoiaram ou apoiam este projeto político. Claramente foi uma escolha equivocada motivada por um sentimento de que os direitos adquiridos são conquistas individuais e não coletivas. Este é um exemplo candente do paradigma meritocrático. Ao desconsiderar o viés coletivo na conquista dos nossos direitos e liberdades, o cidadão fecha-se na falsa sensação de que é o único responsável por seu sucesso e bem estar.

A rejeição que muitos LGBT+ têm às pautas do próprio movimento e a consequente adesão acalorada à corrente de pensamentos conservadores escondem muitos vieses de outros preconceitos, como o machismo e o racismo. É interessante notar que parte significativa das manifestações preconceituosas de dentro da própria comunidade é direcionada aos homens gays afeminados, pois vem daqueles que acreditam que os homens (gays ou não) devem seguir uma cartilha de comportamento masculino pré-estabelecida e ignoram as questões emergentes de gênero que vão além da conhecida binariedade (masculino e feminino). Outro sintoma desse machismo entranhado é a invisibilização ou a fetichização de mulheres lésbicas e a constante e irritante ideia de que a uma mulher só “torna-se lésbica” por que não encontrou um homem capaz de mantê-la hétero.

Outro triste destaque fica com as travestis e transexuais que no Brasil vivem em média 35 anos enquanto a expectativa de vida dos brasileiros é superior aos 70 anos. Elas também pertencem ao grupo com maior evasão escolar e dificuldade de acesso ao mercado formal de trabalho por conta do amplo preconceito e desconhecimento das questões de identidade de gênero. Notamos que enquanto cada vez mais gays, lésbicas, e bissexuais encontram espaços receptivos no mundo corporativo para assumir suas orientações sexuais, essa não é a realidade das pessoas trans que quase sempre são empurradas à prostituição.

As pessoas LGBTQ+ que vivem em espaços livres do preconceito agressivo podem creditar a si mesmas essa conquista, ao mesmo tempo em deixam de perceber as manifestações mais sutis de intolerância, o que prejudica o reconhecimento de que mesmo a segurança de alguns espaços/bolhas foi conquistada por uma luta coletiva, cujo marco inicial datamos em Stonewall e que se estende até hoje. Compreender que o esforço individual é tão importante quanto estar num patamar de direitos conquistados coletivamente é fundamental para barrar os retrocessos que vivenciamos atualmente. E isso vale para todos os movimentos identitários, sejam feministas, antirracistas, indígenas, quilombolas, e afins.

Não é possível avançar individualmente, pois os direitos não advém de meritocracia, mas de luta. É preciso encontrar pontos em comum entre todas as letras da comunidade LGBTQ+ e também entre todos esses movimentos identitários para continuarmos existindo e lutando. Quando alguém não tem a garantia de seus direitos civis e sociais, ninguém os tem de verdade.