No último 14 de abril, Anyky Lima, militante pioneira na luta pelos direitos de mulheres travestis e transexuais, morreu aos 65 anos em Belo Horizonte. Tanto sua morte como sua vida foram uma luta. Ela combatia há anos um câncer e acabou sucumbindo à doença, isso depois de ter sobrevivido à ditadura, à epidemia do HIV e à violência transfóbica do nosso país.

anyky lima

Nascida no bairro de Padre Miguel, Rio de Janeiro, foi expulsa de casa aos 12 anos, quando passou a viver nas ruas e trabalhar como prostituta. Ao longo de sua vida sempre acolheu meninas trans, em especial as trabalhadoras sexuais, como ela. E por ter se tornado idosa num país onde a expectativa de vida de uma travesti é de 35 anos, Vó Anyky, como carinhosamente é chamada pela Antra – Associação Nacional de Travestis e Transexuais, já tem lugar de destaque entre os ícones LGBTI+.

Para além de ter superado as estatísticas etárias, Anyky foi uma ferrenha combatente dos direitos humanos, especialmente da causa da população trans brasileira, desde um tempo quando a repressão do Estado era ainda mais violenta, e que a presença de expoentes como Duda Salabert e Erika Hilton em câmaras e assembleias legislativas sequer era imaginável.

Vale lembrar que apesar da OMS – Organização Mundial da Saúde ter retirado a homossexualidade de sua lista internacional de doenças e distúrbios mentais em 1990, o mesmo só aconteceu com a transexualidade em 2018. Essa é mais uma amostra inequívoca de como as conquistas dos direitos LGBTI+ não se dão por igual, mantendo travestis e transexuais como as pessoas mais violentadas da nossa comunidade.

Uma violência que pode ser traduzida pelo brutal número de assassinatos de mulheres trans/travestis que, segundo dados do monitoramento da TGEU Transgender Europe, colocam o Brasil no topo do ranking deste tipo de crime. Mas também através da marginalização destes corpos, frequentemente desumanizados e fetichizados, num constante silenciamento de suas vozes.

A arte tem sido uma importante aliada no enfrentamento da invisibilidade imposta às pessoas trans. Seja na música com Liniker, Pepita e Linn da Quebrada, ou no cinema com “Divinas Divas”, há cada vez mais gente comprometida em garantir que as mulheres trans e travestis possam contar sua própria história.

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linn da quebrada

Neste movimento, a cereja do bolo é Pose. A série do aclamado Ryan Murphy, distribuída no Brasil pela Netflix, reuniu o maior elenco trans da história para entoar uma verdadeira ode à cultura queer dos anos 80. Em Pose, a comunidade transexual é a grande estrela do show, vivendo uma história que aborda o enfrentamento dos preconceitos de gênero, a segregação de negros e latinos em guetos raciais, e a luta para sobreviver à sentença de morte que o HIV representava até então.

Logo de cara, tudo na série parece girar em torno dos bailes undergrounds da comunidade LGBTI+ na Nova York dos anos 80, com as principais personagens envolvidas numa disputa vibrante por troféus. Mas no decorrer da história, cuja 3ª temporada chega agora em maio, fica bem claro que o ponto central do enredo é a família. Mas não o conceito biológico de família. Em Pose, as famílias são chamadas de Casas e são formadas por afinidade, afeto e proteção. Toda a história é sobre identidade e pertencimento, e especialmente, sobre buscar e encontrar acolhimento em um mundo que se recusa a aceitar as pessoas como elas realmente são.

pose

Não sei se Anyky assistia a série de Ryan Murphy, mas sua trajetória de luta e acolhimento lembra muito à das mães de Pose. Nas mensagens de despedida deixadas na página dela, “Vó” e “tia” são os termos que mais se repetem, recordando o quanto ela acolhia, criava vínculos, e costurava famílias com laços de amor.

Nesse tempo de tanto luto, é preciso reverenciar a luta de quem como Anyky dedicou sua vida por nós. O seu legado deve servir como norte e motivação para continuarmos seu trabalho, pois se alguma coisa nos une nessa comunidade é saber que até nos momentos mais sombrios encontramos força e felicidade.