O Oscar parece estar se tornado um assunto fora de moda, cada vez mais restrito ao universo das fofocas e dos cinéfilos de carteirinha, mas neste ano acabei absorvido pela ostensiva propaganda hollywoodiana e me rendi ao frenesi de assistir, antes da premiação claro, à longa lista de produções indicadas à tão desejada estatueta dourada, aquela da qual nós brasileiros só chegamos perto. Foi um desafio bastante prazeroso, afinal de contas não é sempre que uma mesma edição reúne o rei de Wakanda e o vice-presidente estadunidense, uma rainha lésbica e uma lenda gay do rock inglês, a Netflix e ainda a versão americana de Juntos e Shalow Now.

Devo dizer que não cumpri o prazo, mas tampouco abandonei o projeto, ainda que já no fim de abril faltasse ver aquele que foi o grande vencedor da noite: “Green Book”! O longa-metragem, cujo título faz referência a um guia de viagem que indicava hotéis e restaurantes onde negros eram aceitos, conta a história da turnê de um pianista negro acompanhado de seu motorista branco pelo sul dos Estados Unidos durante os anos de segregação racial. Os dois personagens tão distintos – Don Shirley (Mahershala Ali) um músico sofisticado e Tony Lip (Viggo Mortensen) um cara simplório e carregado de preconceitos – formam uma parceria inusitada e na medida em que seus mundos se chocam, constroem uma improvável amizade.

A história de superação, sempre tão valorizada em Hollywood, recebeu duras críticas de que reforçava o racismo em vez de combatê-lo, pois dava destaque ao papel do “branco salvador” enquanto mais uma vez deixava o negro em segundo plano. Críticas compartilhadas inclusive por um zangado Spike Lee, diretor concorrente com Infiltrado na Klan, ainda durante premiação em Los Angeles. Longe de qualquer consenso e entre a exaltação e a execração de Green Book, fui retardando meu desejo de assisti-lo, até que num voo de mais de 12 horas decidi finalmente completar a missão.

Acompanhar o filme por suas duas horas é como percorrer uma jornada cheia de referências, surpresas, e também de momentos amargos como o que o músico é impedido de usar o banheiro da casa onde se apresentava. Parece absurdo para nosso mundo atual, mas sessenta anos atrás havia leis impedindo os brancos e os negros norte-americanos de usar os mesmos banheiros, aliás, havia leis proibindo os negros de usar os banheiros dos brancos, e é por isso que Don Shirley, o pianista de Green Book, mesmo sendo um músico aclamado e principal estrela das apresentações não podia usar o mesmo banheiro que seu público branco.

É o mesmo conflito apresentado em “Histórias Cruzadas”, o filme que mostra a vida no interior do Mississipi através do olhar das empregadas domésticas, todas mulheres negras, tratadas com desprezo por suas patroas brancas. Elas limpam, cozinham, e cuidam das crianças, mas não podem usar os banheiros de dentro das casas. Nesta história, o racismo hipócrita da cidade sulista é escancarado pelo trabalho de uma jovem jornalista branca inconformada em parceria com uma corajosa empregada negra cansada das humilhações.

As leis de segregação racial nos Estados Unidos já não existem mais, e no Brasil, pelo menos desde a proclamação da República, nunca tivemos leis assim. Mas é notório que o racismo daqui é tão arraigado quanto o do nosso vizinho do norte. Nossa sociedade e nosso estado são, mesmo sem nenhum dispositivo legal objetivamente segregacionista, agentes ativos na perpetuação das desigualdades. Por aqui não nenhuma lei impedindo as pessoas de usar determinado banheiro por conta da cor de sua pele, mas isso ocorre porque temos em nosso país uma versão mais elaborada e até sutil de segregação: o banheiro da empregada.

Para seguir com exemplos cinematográficos, quem assistiu “Que horas ela volta” vai se lembrar que Val, uma empregada doméstica vivida por Regina Casé, morava há mais de dez anos na casa de seus patrões em São Paulo e era considerada praticamente da família. Mas dentro desse amplo lar da classe média alta, Val não transitava livremente. Ela fazia suas refeições em uma mesa apartada e dormia num quarto pequeno e escuro nos fundos da casa, muito diferente dos outros ambientes da propriedade, tão mais arejados e luminosos. Val não era impedida por nenhuma lei de usar o banheiro dos patrões, mas ela compreendia intuitivamente que aquele não era um espaço para ela.

VEJA:   Laboratório Cult | Super Heróis detestáveis em 'The Boys'

Tranquilamente podemos argumentar que esse aspecto da nossa cultura está ficando para trás, afinal de contas os apartamentos de hoje em dia, de tão menores que são, já nem tem mais o banheiro da empregada. E outra, quase ninguém mais tem empregada, pelo menos não no sentido tradicional. O que vemos agora são legiões de diaristas, trabalhando dia aqui e dia acolá, seguindo a tendência de uma “uberização” sem precedentes da mão de obra, que desfrutando de uma específica liberdade em troca de seus direitos. Por isso tudo, poderíamos dizer que estaria enterrada definitivamente a problemática dos banheiros no Brasil. Não é bem assim, infelizmente!

A mais recente forma de segregação de banheiros diz respeito à identidade de gênero das pessoas e tem causado inúmeros conflitos pelo país. Em abril deste ano, enquanto eu completava minha lista de filmes oscarizados, um deputado estadual do PSL de São Paulo (que surpresa, não?) subiu à tribuna da Assembleia Legislativa para dizer que retiraria a força (na verdade ele disse “a tapas”) uma mulher transexual que eventualmente estivesse em um banheiro feminino. Ora, uma pessoa transexual é aquela que se identifica com um gênero diferente do seu sexo biológico. Assim, uma mulher transexual terá a aparência feminina, se vestirá e agirá de modo feminino, e quando for usar um banheiro público naturalmente optará por um banheiro feminino. Contudo, na cabeça do deputado e na cabeça de muita gente, isso não pode funcionar assim.

A forte emergência dos movimentos por direitos sociais nos últimos anos tem garantido muitas conquistas às pessoas LGBTQ+, tanto no Brasil como no mundo. Mas ao passo que as questões de orientação sexual começam a ser assimiladas na sociedade, persiste uma forte incompreensão do que é identidade de gênero, e por isso travestis e transexuais ainda sofrem mais com o preconceito e não acessam plenamente toda a garantia emancipadora trazidas pelas conquistas da comunidade LGBTQ+. Nesse vácuo de compreensão, os setores conservadores estão cada vez mais aferrados à ideia de luta contra o que chamam de “ideologia de gênero”, mirando suas baterias contra qualquer tentativa de inclusão das travestis e transexuais.

Com o pretexto de defender a família tradicional, aquela formada por homem e mulher e filhos com papéis bem definidos, esses setores tem agido cada vez mais violentamente contra a comunidade LGBTQ+, sobretudo contra as pessoas trans. Sua bandeira predileta é a segregação nos banheiros, impedindo que mulheres e homens transexuais utilizem os espaços destinados ao gênero com o qual se identificam. Os motivos que embasam esse preconceito são tão infundados como os que separavam as pessoas pela cor da pele. Há quem diga, por exemplo, que a utilização de banheiros femininos por mulheres trans coloque em risco a segurança das demais usuárias, o que é um medo – uma fobia – contestável, pois não há registro de que pessoas trans sejam uma ameaça ou cometam violência contra usuárias de banheiros femininos. Ao contrário, o que a mídia relata com triste frequência são episódios de violência moral e física contra travestis e transexuais femininas quando está em disputa qual banheiro deve ser utilizado por elas. Curiosamente, problemas envolvendo homens trans são mais raros, o que nos demonstra que o machismo entranhado também faz parte dessa equação.

Em 2018 a transexualidade deixou de ser classificada como doença pela OMS – Organização Mundial da Saúde. Portanto, do ponto de vista biológico ou social, ela é entendida como indissociável do modo de ser e de estar no mundo das pessoas transexuais. Desconsiderar ou excluir pessoas em virtude de tal condição identitária é puramente preconceito. E assim como nos tempos da segregação racial nos Estados Unidos, os motivos para impedir pessoas de usarem este ou aquele banheiro não encontram nenhuma justificativa fora dos padrões discriminatórios. É apenas uma das mais evidentes manifestações da desigualdade presentes no nosso dia a dia.

Uma sociedade que classifica pessoas e decide quais banheiros elas podem usar está doente e ignora a dignidade humana inerente a cada um de nós. A segregação é sempre preconceito e discriminação. Ao se deparar com ela, lute!