Assim como canta Emicida em AmarElo, “presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte”, mas em 2017 eu me sentia tão pressionado vivendo simultaneamente uma longa fase de negação do luto e uma inesperada frustração amorosa, que meu sentimento era de que a qualquer instante o mundo se abriria sob meus pés. Naqueles dias distantes e difíceis comecei a assistir 13 Reasons Why, uma série da Netflix pensada como uma longa carta de suicídio, deixada pela adolescente Hannah Baker, contando através de 13 fitas cassete os motivos que a fizeram desistir de tudo. A série se tornou uma febre, todo mundo assistia, debatia, elogiava. Eu também. Já as críticas ficaram por conta das organizações de saúde mental, denunciando a glamourização do suicídio e o fato da série mostrá-lo como consequência lógica dos problemas causados pelo bullying. De fato, interromper a jornada quando os dias são opressivos é um convite ilusoriamente agradável, e por alguns momentos, sobretudo nas horas mais tristes, a decisão de Hannah Baker também fez sentido para mim.

Mas esse meu tempo de melancolia foi violentamente sacudido num fim de tarde muito abafado, desses típicos do Rio de Janeiro, quando alguém se atirou pela janela na rua em que eu morava. Nos dias mais quentes eu costumava voltar caminhando do trabalho, e nesse dia, quando chegava à esquina da rua de casa, senti o mundo parar com o som apavorante de alguém caindo do céu bem à minha frente. Era um rapaz, não sei seu nome, nem sua história. Mas eu lembro que depois daquele barulho ensurdecedor, se sucedeu um longo silêncio, impensável para uma rua tão agitada como aquela. E quando finalmente pareceu que o mundo voltava a girar, foi como se eu me despertasse de um longo torpor. A princípio eu senti medo, depois um pouco de vergonha, e então com ajuda do tempo e de um punhado de bons amigos, alguns que nem souberam desses detalhes todos, os sentimentos tristes foram se apagando, diminuindo como uma chama não mais alimentada. Por todos esses anos eu nem mais lembrava daquele trágico fim de tarde na Rua da Glória. Até que uma sequência de tweets contando a história de Roberto apareceu na minha timeline.

A sequência, ou thread, foi postada pelo publicitário pernambucano Mauricio Carvalho, e nela ele compartilhou a história de Roberto, seu vizinho que desde os anos 80 era conhecido pelos outros moradores como o gay do prédio. A história, que poderia ser só fofoca de rede social, ganhou contornos mais tristes quando descobri que Roberto, agora já idoso, havia ficado cego dos dois olhos após uma malfadada cirurgia de glaucoma. Ele vivia sozinho no apartamento, sem família ou amigos, e contava com a ajuda de uma cuidadora e com a boa vontade de alguns vizinhos e porteiros que lhe diziam as horas do dia ou então o ajudavam a encontrar a porta de casa quando Roberto se perdia pelos corredores. A solidão acompanhou Roberto naquele apartamento por quase 40 anos, até que ele decidiu encerrar esse sofrimento se lançando pela janela. Sobre a família de Roberto, sabemos apenas que apareceram por lá logo após a sua morte. Não eram desconhecidos, eram ausentes.

Lendo a história de Roberto eu experimentei de novo, e ainda que momentaneamente, aquela sensação de tristeza. O medo de ficar sozinho na velhice, desamparado de alguma forma é real para todo mundo, e ainda mais cruel para nós LGBTI+. O processo de envelhecimento e de consequente solidão é diferente na nossa comunidade, começando com as travestis e transexuais que sequer envelhecem, pois são assassinadas antes. A expectativa de vida de transexuais no Brasil é de 35 anos! Outros LGBTI+ criam redes alternativas à família ao longo de suas vidas, sobretudo quando não são aceitos por seus pais, irmãos e outros parentes, mas quando os amigos ou um companheiro morrem, acabam sozinhos novamente. A LGBTfobia, tão presente na sociedade, também estará entre os cuidadores, estará na casa de repouso, e às vezes a sobrevivência implica na volta para o armário, no retorno à uma solidão cruel e tóxica que nos deixa mais expostos aos riscos de suicídio.

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Na outra ponta da vida, na infância e adolescência, o enfrentamento é com o bullying sem trégua nas escolas e vizinhança. É claro que o bullying pode atingir qualquer um, assim como todas as minorias sofrem com o preconceito em maior ou menor grau, mas as crianças e adolescentes LGBTI+ percebem desde cedo a necessidade de esconder quem são, pois o preconceito da rua pode ser vivido também dentro de casa. E uma vida repleta do medo de ser descoberto, castigado, ou expulso, cobra seu preço.

Pesquisas mostram que o estresses decorrente de tanta rejeição, violência e estigmatização contribui diretamente para o aumento dos riscos à saúde mental das pessoas que sofrem com preconceito. Há também trabalhos específicos mostrando que as pessoas LGBTI+ têm maior risco de sofrer de ansiedade e depressão, e estão mais vulneráveis ao risco de suicídio que a população cis e heterossexual. A Universidade de Columbia nos Estados Unidos afirmou em estudo que os jovens LGBTI+ têm cinco vezes mais chances de tentar de fato o suicídio, enquanto um estudo da Irlanda, feito com 15 mil adolescentes, apontou que 40% dos entrevistados homossexuais já pensaram, planejaram ou tentaram tirar a própria vida, enquanto para os heterossexuais, a taxa cai para 15%. No Brasil, os dados oficiais mostram que a cada 1 hora 1 pessoa põe fim a própria vida. E embora não haja estudos específicos para compreender a profundidade do problema do suicídio na comunidade LGBTI+ brasileira, podemos inferir que somos um grupo mais vulnerável a este risco, assim como acontece nos outros países.

Obviamente, a maior prevalência de problemas ligados à saúde mental e ao suicídio não tem relação direta com a sexualidade. O próprio estudo da Universidade de Columbia aponta que o verdadeiro problema está na falta de apoio da família e dos amigos. A solidão, o isolamento, o estresse são causados não pela orientação sexual ou identidade de gênero de cada um, mas pela forma excludente que a sociedade historicamente trata pessoas diferentes. Aqui cabe destacar que não há apenas a violência simbólica da exclusão, como a praticada pelos cristãos fundamentalistas em suas igrejas ou por famílias intolerantes, mas também da violência física que continua oprimindo quem está dentro ou fora do armário. O conservadorismo agressivo da nossa sociedade impede o diálogo e promove a violência e o isolamento, como um ciclo vicioso.

Esse ciclo, porém, não será quebrado a não ser por nós mesmos. A solidão, o isolamento e o suicídio serão enfrentados e vencidos na comunidade LGBTI+ com políticas públicas e educação sexual nas escolas, mas também com luta e empoderamento, de nós por nós mesmos e por outras comunidades ameaçadas. Precisamos trabalhar juntos, compreendendo que os projetos de felicidade pessoal quando descolados do todo representam o oposto do “Ninguém solta a mão de Ninguém”. Por isso, cuide dos seus amigos. Numa luta em conjunto, já não estaremos sozinhos!

Se você precisa de ajuda, há uma rede de voluntários no CVV que você pode contatar a qualquer hora do dia por chat ou pelo telefone 188. A ligação é gratuita e o contato fica mantido em sigilo.

Dedico esse texto à memória do meu amigo Luciano, que em 2019 desistiu desta vida. Que a doçura e o amor que você sempre nos dedicou sejam luzes para aqueles que mais precisam.