Cidade Invisível, a nova produção brasileira da Netflix, estreou no começo do ano e já disputa o título de grande sucesso de 2021. Tendo como inspiração os mitos folclóricos tão conhecidos dos brasileiros, a série apresenta uma trama bem construída, cheia de mistério e ação, que conquistou o Brasil e boa parte do mundo. Na dita cidade, as fantásticas criaturas vivem entre nós e interferem criativamente na trama do protagonista Eric, um policial ambiental que ao investigar uma série de crimes descobre que seu passado está intimamente ligado aos seres sobrenaturais, cuja existência ele acabara de descobrir.

Apenas por resgatar tradições populares como as lendas do Saci e do Curupira, a série já mostra seu valor. São histórias que estavam adormecidas em nosso imaginário coletivo, e agora despertam justamente num momento de completo desmonte da cultura brasileira. Mas Cidade Invisível não é apenas uma série sobre folclore ou mitologia. A produção usa esses recursos mágicos como alavanca para discutir questões e narrativas muito presentes no Brasil real.

cidade invisível

A arte imita a vida

A mais evidente é sobre a exploração desenfreada da natureza e as consequências para o meio ambiente. Embora tenha um vilão sobrenatural, há também na série um outro vilão totalmente de carne e osso: um empresário inescrupuloso que deseja remover a comunidade de pescadores da Floresta do Cedro para transformar a área num eco resort. Para garantir o sucesso da empreitada e passar sua boiada, ele recorre a cooptação financeira de alguns moradores, a incêndios criminosos, e a tentativas de asfixiar as atividades econômicas dos moradores locais. Aqui a ficção repete o noticiário de todos os dias, onde as queimadas e o desmatamento se multiplicam em prol do lucro, sempre com a conivência de um governo destrutivo.

Outro ponto importante, mas levantado apenas indiretamente, é o abismo social que marginaliza os pobres no Brasil. O Curupira quando vai para a cidade passa a viver como uma pessoa em situação de rua, e o Saci escolhe morar em uma ocupação no bairro carioca da Lapa. As escolhas dessas duas entidades se justificam pela invisibilidade social que a pobreza acarreta e é emblemático que, pela necessidade de se esconder do mundo, eles escolham viver em lugares onde estão as pessoas que a sociedade não quer ver.

A narrativa do desencanto

Mas, apesar do sucesso da série, no mundo real nós não aceitamos mais a existência de seres mágico, sejam eles deuses ou demônios, anjos ou duendes. Frequentemente tratamos com incredulidade e desdém as possibilidades de interação entre o mundo material e o espiritual, e o valor de amuletos e relíquias sagradas, bem como as crenças religiosas, foi reduzido a mera superstição. Isso porque vivemos em um mundo desencantado, no qual não há espaço para o mistério, e onde a ciência e o capitalismo são os principais motores de um longo processo de racionalização.

VEJA:   Uma mistura orgânica de folclore e cultura pop

cidade invisivel

O próprio Max Weber, sociólogo que se considerava um racionalista, define em sua famosa obra “A ética protestante e o espírito do capitalismo” que a modernidade é basicamente uma máquina eficiente e sem coração, onde não há lugar para nenhum tipo encantamento.

Um bom exemplo do funcionamento dessa máquina são os armazéns das gigantes do varejo ou os novos aplicativos de entrega e transporte. Nesses lugares a racionalização do trabalho vem atingindo níveis extremos com o claro objetivo de diminuir custos e aumentar a produtividade, fazendo com que os seres humanos sejam tratados essencialmente como máquinas. E é bastante claro que se puderem substituir as pessoas por robôs, certamente o farão.

Quando surgem novas divindades

Mas toda história tem dois lados. A Amazon e o Ifood podem ser exemplos de mecanização do trabalho e desvalorização do capital humano para quem trabalha ali, mas para os consumidores, elas são experiências mágicas, metafísicas, onde uma abundância infinita de produtos pode ser invocada numa tela que cabe na palma da mão, e nossos desejos podem ser materializados em poucos cliques, com a única contrapartida de termos dinheiro, ou pelo menos crédito.

O lado desencantado da economia, onde impera a realidade dura e sem coração, serve para criar o outro lado, este sim cheio de poesia e objetos transcendentes que alimentam nossa necessidade elementar por sentido. Portanto, podemos rejeitar sem medo essa ideia de que a modernidade ocidental é totalmente desencantada. Ao contrário, o desejo humano de transcendência em vez de apagado, foi redirecionado. E é por isso que apesar de vivermos num tempo ostensivamente secular e racional, o nosso modo de vida segue permeado por ideias mágicas e forças sobrenaturais.

Na religião capitalista, observada por Max Weber, estão presentes todos os ritos e divindades, começando pelo mercado, um ser divino e onipresente. Os produtos recém-lançados podem ser entendidos como amuletos sagrados, e há também uma casta sacerdotal formada por tecnocratas e economistas. Nesta nova fé, o dinheiro flui como promessa de graça, realizando milagres na vida dos devotos que o adoram, e deixando de fora os não merecedores. O desejo por alcançá-lo passa a justificar todo tipo de exploração e destruição, numa idolatria perversa que nos mantem presos a um modo de vida absolutamente injusto e sabidamente insustentável.

Vencer essa armadilha passa por uma espécie de reencantamento, para outra vez compreendermos que cada ser humano e cada criatura neste mundo possuem uma sacralidade em si mesmos. Redescobrir o valor do ser acima do ter é um passo necessário, e Cidade Invisível pode nos ajudar a dá-lo.