A recente safra de cinema nacional tem produzido basicamente dois tipos de filmes: aqueles protagonizados por estrelas globais, com histórias fracas e visando o lucro das bilheterias ao lado de outros que primam pela originalidade, brindando o espectador com montagens alternativas, histórias inteligentes e atuações inspiradas.

O problema encontra-se na divulgação. Enquanto o primeiro “vende” fácil, o segundo precisa ganhar algum prêmio ou contar com um ator famoso no elenco, ou então ficará vagando no limbo dos festivais de cinema, o que é incrivelmente injusto, mas real.

A projeção a seguir conseguiu emergir um pouco, o suficiente para que ficasse conhecida, graças ao seu ator principal, que além de ser conhecido pelo grande público, ajudou divulgando quando e como pôde principalmente em programas de TV.

Baseado na obra homônima de Lourenço Mutarelli, a narrativa acompanha a trajetória de Lourenço, o dono de uma loja de penhores que passa o dia atendendo pessoas que o procuram para vender objetos, pois precisam desesperadamente de dinheiro. Indiferente ao sofrimento alheio, suas únicas obsessões são o traseiro de uma garçonete e o cheiro do ralo do banheiro de seu escritório que gradativamente vai se tornando insuportável.

A frieza desenvolvida para a obtenção de lucro transformou-se em prazer na decisão do destino daqueles que o procuram, jogando com a angústia de terceiros.

Esse distanciamento terminou incrementando também uma rejeição a qualquer tipo de envolvimento emocional, a ponto de não mesurar o quanto suas palavras podem magoar alguém, guardando semelhança com o protagonista do filme “Melhor é Impossível”.

Um detalhe interessante é que todos os personagens são anônimos, já que observamos tudo pela ótica do perturbado e instável Lourenço.

Sua relação de amor e ódio com o ralo é interessantíssima: a principio tenta de todos os modos suprimi-lo e abafá-lo (como a Lady Macbeth shakespeariana, que não conseguia se livrar do sangue do homicídio em suas mãos) esclarecendo aos visitantes que o cheiro não vem dele, mas sim do ralo. Aos poucos, percebemos que há uma relação intrínseca entre ambos, já que o encanamento fedido é um espelho da essência do protagonista.

VEJA:   Filho de David Bowie cria clube do livro virtual com obras que seu pai amava

Nesse ponto lembro um ensaio escrito por Milan Kundera em sua obra máxima, “A insustentável leveza do ser”, onde ele pondera sobre a analogia entre a natureza humana e o esgoto como depositório de todas as fraquezas e defeitos expurgados e isolados a uma distância segura de forma rápida e segura, como se nunca estivéssemos ligados a eles.

O olho de vidro adquirido em certo ponto da narrativa é uma tentativa de Lourenço de atribuir um aspecto humano à sua personalidade, enriquecendo a complexa psique do personagem. Nesse ponto destaco o fenomenal trabalho de Selton Mello, que consegue trazer à tona todas as nuances deste tragicômico personagem, condenável em alguns aspectos, mas incrivelmente carismático.

“O cheiro do ralo” é um exemplo da potencialidade do cinema nacional, que tem bastante a oferecer, desde que se concentre na história e nas atuações _ o básico e essencial para uma projeção de qualidade.