O autismo é uma condição de desenvolvimento e percepção do mundo que traz bastante vulnerabilidade e incerteza aos seus portadores. Enclausurados dentro de seu próprio mundo, acabam obcecados por rotinas e regras, pois sabem que aquilo lhes traz conforto e segurança. Dessa forma, acabam se revelando excessivamente sinceros e suas demonstrações de afeto são as mais honestas possíveis.  

Geralmente as histórias envolvendo pessoas nessas condições retratam o ponto de vista de quem precisa conviver com essas pessoas, sejam familiares ou amigos tentando acessar cada pequeno universo particular dos mesmos. 

Mas e se o protagonista da história fosse um autista, estabelecendo uma relação de cumplicidade com o espectador e projetando alguém que não deseja nada mais do que se relacionar com outras pessoas, cometendo os mesmos erros, tendo os mesmos sonhos e frustrações que a vida traz? 

Assim, em Atypical somos apresentados a Samuel Gardner, um jovem de dezoito anos diagnosticado como um “autista funcional” capaz de ir à escola e trabalhar em uma loja de eletrônicos com o seu melhor amigo Zahid. Seu progresso se deve em grande parte à sua terapia com a psicanalista Júlia, por quem ele eventualmente acaba se apaixonando, provavelmente em função da convivência intensiva. 

Em sua casa ele recebe uma grande dose de atenção de sua mãe e de sua irmã mais nova que é apaixonada por atletismo e sente um pouco de ciúme por sentir que não recebe o mesmo zelo. Seu pai ficou um bom tempo afastado no serviço de paramédico por não saber lidar com o problema do filho, mas sente a urgência de se reconectar. Todos esses problemas eventualmente acabarão se colidindo e alterando todo o relacionamento nessa residência. 

Todo o universo de Sam gira em torno da Antártida e todo tipo de informações relacionadas ao continente gelado: seus exploradores, a fauna (especialmente os pinguins por quem sente um imenso afeto) e até mesmo informações relacionadas a degelo e suas consequências. Seu mantra em situações de stress é recitar as quatro espécies de pinguim da região. 

Ao mudar a perspectiva, a série se aprofunda na real natureza dos seres humanos, ilustrando que não é necessário fazer um esforço hercúleo para se relacionar e compreender. Muitas vezes as pessoas se apoiam nessa própria imagem do autista como alguém inacessível porque é mais cômodo de lidar com ela. É uma justificativa para ser egocêntrico e narcisista.  

Ao retratar a luta de Paige por um “baile silencioso” onde todos usariam fones de ouvido para que Sam pudesse estar com ela, mostra que a inclusão social dos autistas está muito mais ligada a amor e empatia do que isolamento e cuidados psicológicos. Essa é a verdadeira terapia: estender a mão oferecendo carinho e segurança.  

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