O tema da luta contra a própria cópia já foi utilizado em várias obras do cinema e da Literatura. A primeira abordagem é provavelmente de Dostoiévski em seu romance “O Duplo”, que ganhou uma adaptação para o cinema em 2013 com Jesse Eisenberg no papel principal. Nessa obra, o tímido Simon não se destaca no trabalho e vive de forma bastante reclusa, sendo praticamente invisível até se encontrar certo dia com alguém fisicamente idêntico a ele, mas com uma personalidade completamente oposta.  

Os dois trabalham no mesmo lugar e gradativamente o “novato” vai ganhando tudo, desde promoções até o coração da garota por quem ele é secretamente apaixonado. Enfim, o pesadelo de qualquer um, não é verdade? 

Em 2014 foi lançado “O homem duplicado” com Jake Gyllenhaall, que também é adaptado de um livro homônimo escrito por José Saramago, sobre um professor universitário que fica obcecado em encontrar o seu doppelgänger após assistir ao mesmo atuando num filme.  

Todos esses confrontos levam a questionamentos interessantes sobre a nossa condição existencial e à nossa capacidade de estar sempre se reinventando. Como agir ao encontrar uma versão nossa com a energia vital renovada e sem os vícios e defeitos que fomos acumulando ao longo de nossas vidas? 

A sinopse dessa nova série da Netflix acompanha Miles, um publicitário acomodado no emprego e no casamento que começa a perceber o seu próprio cansaço emocional e psicológico como obstáculos a serem superados. É então que um colega de trabalho lhe apresenta o cartão de um SPA com a promessa de que essa consulta irá mudar radicalmente a sua vida.  

Desesperado, ele gasta todos os fundos da conta conjunta com a esposa para pagar a tão milagrosa visita. Obviamente algo dá muito errado e ele acaba descobrindo a terrível verdade por trás da instituição, que fazia cópias melhoradas tanto a nível físico quanto psicológico de seus pacientes, para depois “descartar” as versões originais, envenenando e enterrando as mesmas numa floresta. O processo até então era feito com tanta maestria que a pessoa literalmente entrava com um corpo e saia com outro, sem perceber o que tinha acontecido. 

O problema todo acontece quando o Miles antigo sobrevive à sua tentativa de assassinato e agora precisa compartilhar espaço com a sua versão 2.0 que é igualmente apaixonado pela esposa que está fazendo tratamento para engravidar.  

Paul Rudd está fazendo uma performance espetacular num papel que tem alguns momentos de comédia, onde ele é mais conhecido, mas com uma forte carga dramática, pois trata de um homem em conflito com ele mesmo: duas versões distintas da mesma pessoa disputando o um espaço e o amor da mesma mulher. Além de levantar várias questões filosóficas interessantes, essa série nos leva a refletir sobre como somos construídos pelo amálgama de nossas virtudes e defeitos. De certa forma as impurezas acabam revelando nossa verdadeira essência, nos tornando dessa forma mais especiais e únicos.  

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