Ricky Gervais é um dos maiores gênios do humor na minha opinião. Suas piadas sempre tem o timing acertado, mesmo quando ele discute temas polêmicos ou ácidos. Seja em seus stand ups, séries, filmes ou as famosas apresentações do Globo de Ouro ele sempre se destaca e é bem recebido pelo público e pela crítica.

Uma de suas criações mais famosas é a versão britânica de The Office, que alavancou a sua carreira e renderia anos depois um derivado americano que manteve a qualidade do original pois contava com a sua consultoria. Sempre muito bem-humorado, sabe rir de si mesmo e dos outros de maneira bastante sarcástica, o que nem sempre é bem recebido por todos, dada a natureza subjetiva da comédia. De qualquer forma é seguro dizer que ele consegue ser comovente e divertido na medida certa, sempre nos fazendo refletir sobre a natureza do ser humano.

Sua obra mais recente é a série After Life, que no Brasil ganhou o péssimo subtítulo “Vocês vão ter que me engolir”, fazendo referência à célebre frase de Zagalo enquanto pouco casa com a proposta da história, que acompanha o viúvo Tony, jornalista de um pequeno periódico em uma cidadela inglesa. A perda de sua amada o abalou de tal forma que ele abandonou por completo o seu “filtro social”, dizendo o que lhe vier à cabeça e agindo da mesma forma, pois segundo o mesmo, na pior das hipóteses ele teria sempre um plano B: o suicídio.

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Poucos são aqueles que conseguem escapar de seu comportamento kamikaze, como o seu sobrinho, sua cadela, seu pai junto à enfermeira que cuida do mesmo, uma jornalista novata e uma viúva cuja lápide do marido é vizinha à de sua falecida esposa. O mais interessante é que suas frases não são necessariamente desagradáveis (por isso a minha discordância com o subtítulo), mas nada além de uma logística rasgada e crua, sem a maquiagem da etiqueta que muitas vezes nos trava diante de uma situação delicada.

Com a segunda temporada já garantida para 2020, essa história agridoce nos leva a refletir sobre nossas atitudes e sobre nossa mortalidade, pois segundo o pensamento do filósofo alemão Martin Heidegger, a consciência de nossa morte nos leva a aproveitar melhor a vida, ao invés de adiar a nossa própria felicidade com outras prioridades menos relevantes.