A função da comédia, desde os tempos da Grécia Antiga, sempre foi o de atacar as certezas, o status quo, as instituições, levantar questões para buscar uma reflexão sobre um respectivo dogma ou paradigma. Ele tira a audiência de sua zona de conforto e gera debates sobre temas recorrentes em nossa contemporaneidade.  

Segundo o humorista Marcos Veras, em entrevista ao Programa Altas Horas O grande barato do humor é colocar uma lente de aumento em assuntos que você talvez nem tocaria, pensaria ou teria uma opinião formada. O humor te traz um pouco essa luz, faz com que você veja o mundo de maneira mais crítica, porém mais leve; forte, porém doce. Automaticamente isso traz o riso” .

E acreditem, South Park faz isso como ninguém. A série animada de Matt Stone e Trey Parker acompanha uma cidadezinha do Colorado onde acontece todo tipo de eventos, sejam eles estranhos ou simplesmente surreais, mas sempre fazendo referência à elementos da cultura pop e eventos controversos ligados à política ou celebridades. Usando uma técnica de animação relativamente simples, eles economizaram nos traços para enfocar a narrativa, o que acabou sendo uma jogada de mestre. 

Todas as histórias são centradas em quatro crianças: O judeu Kyle, que é atormentado pelo gordinho Cartman, que também é racista, ganancioso e manipulador, Kenny que mora num bairro pobre e morre em todos os episódios e, por fim, Stan, o mais centrado do grupo. Várias outras crianças também foram ganhando espaço como coadjuvantes ao longo dos anos, como o ingênuo Butters, os deficientes Jimmy e Timmy, o negro rico Token e Tweek, que é viciado em café e vive cheio de tiques, para citar alguns. 

Alguns adultos foram ganhando destaque com a expansão do universo do desenho, especialmente Randy, o pai de Stan, que foi gradativamente se tornando um dos melhores personagens da série. 

Ao longo de 23 temporadas fica difícil saber em quais feridas eles não meteram o dedo. Além de fazer humor com todas as religiões do globo terrestre (colocaram todos reunidos numa grande sala, fazendo alusão ao desenho Super Amigos), fizeram piada com Klu KJlux Klan, veganismo, transexualismo, cyberbullying, terrorismo, homofobia, vício em internet, racismo, cientologia, células tronco e vários outros temas controversos que levantaram discussões bastante interessantes sobre esses assuntos. 

Em 1999 lançaram “South Park: maior, melhor e sem cortes”, onde os Estados Unidos entram em guerra com o Canadá (terra natal dos criadores) após uma discussão envolvendo uma película canadense com piadas grotescas que contaminou o linguajar das crianças americanas. Alguns muitos anos depois lançaram dois jogos de videogame, mantendo seu teor ácido e muito bem-humorado: Ao selecionar a etnia do seu avatar no game, aparece a seguinte mensagem: “a mudança de cor de pele não altera a dificuldade do jogo – só a da sua vida.” Vamos torcer para que eles continuem com esse folego por mais alguns anos, pois nunca estivemos tão precisados desse tipo de comédia.