Sofia Calabria é uma jornalista e fotógrafa, de São Paulo, dona de um projeto super interessante, onde retrata a nossa relação com as cicatrizes. Em “Cicatriz – Memória Marcada na Pele”, a moça, que é de São Paulo, nos apresenta fotografias de diversas pessoas com suas cicatrizes, além das histórias por trás de cada marca.

Com uma diversidade incrível, o projeto, que já virou até livro, conta com 26 histórias, incluindo o da própria Sofia. São relatos curiosos e muito interessantes, acompanhadas de fotografias “cruas” e praticamente sem edição, provando que o protagonismo é todo das marcas.

A ideia de apresentar essas histórias surgiu durante uma aula da faculdade: “Deveríamos
fazer um ensaio cujo tema era ‘resistência’. Foi então que me atendei ao meu próprio corpo. Eu também tenho uma cicatriz com uma história importante. E o que é a cicatriz se não a resistência da memória na pele? A partir disso decidi continuar o projeto e expandi-lo”, contou a jornalista em entrevista ao Hypeness.

Confira!

“Era começo dos anos 90. Ninguém ia
chutar que um bebê tinha gastrite crônica igual eu tinha. Quando eu
tinha uns 8 anos achamos um médico que disse que eu tinha gastrite e
esofagite. Eu tinha uma má formação no meu esôfago. Ele falou que eu
precisava refazer uma válvula do esôfago. No começo a cicatriz vinha da
costela até o umbigo, mas eu descobri que eu tinha queloide. Diminuiu,
mas ficou assim mais larguinha. A segunda cirurgia eu comecei a sentir
uma dorzinha nas costas. Pensei, “ah, eu tô carregando mochila pesada,
deve ser esperada. Vou voltar a fazer atividade física e vai ficar tudo
bem”. Aí fui fazer raio-x e lembro que o médico falou: “você tem uma
espondilolistese”. Olhei pra mim mãe… que? Tá falando grego, né. Aí ele
falou, “você tem um deslocamento de vértebra.O seu já tá num nível
avançado. De modo geral, o que a gente faz é colocar pinos de titânio”.
Eu demorei pra acreditar que eu precisava daquilo. Eu sempre pratiquei
esporte. Quando eu voltei, meu irmão falou “nossa que grande”. Aí que eu
fui ver a cicatriz. Eu achei ela grande. Mas acho que o lance da
cicatriz é isso. É uma marca física, uma linha que tá escrita no nosso
corpo. O processo tá na gente. Eu gosto dela hoje. Faz parte de mim.
Você pode tirar a cicatriz, mas a memória dela e da cirurgia nunca vão
sair de mim. As dificuldades que a gente passa na vida são o que a gente
é e nossas marcas também.”
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“Eu tenho problema no pé. Tenho pé
plano. Quando eu tinha 12 anos já tinha passado em vários médicos e
nenhum dava muito certo. Aí passei em um outro que a minha mãe tinha
gostado mais e ele falou que precisava operar os meus pés. Aí marcamos a
cirurgia pra dezembro. Tinha um período longo de recuperação, então eu
ia ficar as férias inteiras de gesso. Tirei o gesso em janeiro e aí eu
tava com a cicatriz. Pensei, “ah, talvez ela diminua”. (risos) Eu sempre
fui muito encafifada com cicatriz. Eu lembro que ficava saindo
casquinha, tinha que tirar ponto. Eu não gostava muito dela. Depois no
outro ano eu fiz cirurgia no pé esquerdo. Aí ficou cicatriz de novo. A
cirurgia não deu certo. Um ano e meio depois eu tive que operar de novo.
Aí fez oooutra cicatriz. Aí a cirurgia não deu certo de novo! Eu tive
que operar de novo, isso já em 2014, e dessa vez ficaram duas
cicatrizes. Eu adquiri uma certa sensibilidade desse lado. Eu sinto
constantemente como se estivesse anestesiado. Com o tempo eu fui me
acostumando com as minhas cicatrizes e acho que ajuda o fato de elas
serem no pé. Quase não dá pra ver. As pessoas não param muito pra ver,
mas eu não gosto muito de ter. Elas simbolizam um período meio ruim da
minha vida. Eu passei três natais, três férias, com o pé operado. Eu
operava logo que saía de férias e eu ficava as férias inteiras de gesso.
Natal, ano novo, janeiro. E normalmente são meses super quentes se você
tá de gesso. Eu tinha que usar muleta, não podia apoiar o pé no chão,
então minha mãe tinha que me levar pra todos os lugares. Foram períodos
de ficar fazendo nada, meio ruins.”