Mais uma edição do Big Brother Brasil começou e desde então só se fala disso. Motivos não faltam para a 21ª edição do programa estar gerando tanta comoção, começando com os participantes já famosos (ou nem tanto), e com a novidade de que esta é a edição com maior número de pessoas negras e LGBTI+. Mas o que realmente tem movimentado as redes são os conflitos gerados na casa envolvendo a temida cultura do cancelamento.

Essa cultura é um tipo de rechaço coletivo a quem insiste em padrões de comportamento que não podem mais ser tolerados, como o assédio, racismo, machismo, lgbtfobia, xenofobia, e uma infinidade de outras problemáticas que estamos descontruindo em longos e dolorosos passos.

Os exemplos mais recentes são do cancelamento de influencers que furaram a quarentena e cantores acusados de violência doméstica. Mas o ponto crítico desse movimento é que em algumas vezes ele vem acompanhado de uma busca irrefletida por perfeição que, quando não atendida, abre espaço para um justiçamento cego. Aí o cancelamento perde sua função de gerar debate e denunciar comportamentos tóxicos e passa a ser apenas ferramenta de aniquilação do outro.

karol conká

Efeito manada

Os participantes iniciaram o BBB de 2021 falando do medo deste último cenário, mas o temor durou pouco. O cancelamento logo começou a ser praticado indiscriminadamente dentro da casa, e como num efeito manada, a imensa maioria dos participantes se uniu em uma sanha canceladora, cujo alvo preferido era Lucas Penteado, um jovem ator negro, participante do movimento secundarista, que foi contínua e desproporcionalmente atacado, silenciado, e humilhado dentro do programa. O motivo para tanta violência foi que ele bebeu demais numa festa e acabou sendo inconveniente. Isso mesmo: em resumo, Lucas foi cancelado por beber e ficar chato.

Mas como ocorre num linchamento, em determinada hora já não importa mais o que o alvo tenha realmente feito ou dito, o que vale é a decisão de que ele é culpado e, por isso, merecedor do desprezo e da crítica de todos do grupo. Nos cruéis desdobramentos dessa história, outros participantes que ainda se mantinham próximos a Lucas também passaram a receber ataques e ameaças para que aderissem a determinação de isolar o garoto. O clima pesou tanto que a produção tentou intervir, ainda que muito timidamente, propondo uma discussão sobre os problemáticos papeis de quem cancela e quem é cancelado. Mas não adiantou muito

Na liderança desse movimento cancelador estavam a DJ Lumena Aleluia e a cantora Karol Conka, mulheres pretas empoderadas que (ao menos em tese) lutam contra injustiças. Aliados com elas duas se destacam o humorista Nego Di e o rapper Projota, protagonistas de conversas deprimentes no confinamento, como quando deslegitimaram a compreensão que o participante Gilberto tem de si como negro, chamando-o de “sujinho”, ou quando Nego Di insinuou que se masturbaria se estivesse deitado ao lado de uma das garotas.

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Contra Lucas, o ápice da violência aconteceu quando ele beijou Gilberto, causando uma onda de agressividade na casa e adicionando a bifobia na equação. Lucas teve sua “saída do armário” ridicularizada, sua sexualidade deslegitimada, e seu caráter questionado. Oprimido, ele desistiu do jogo e abandonou o sonho de ganhar 1 milhão e meio de reais. O resumo dessa equação grotesca cabe no tweet de Marcelo D2: “O que aconteceu com o Lucas é exatamente o que acontece com todos os jovens de periferia todo dia no Brasil…. todo dia”.

lucas penteado

A cegueira e a certeza do bem

Entre os que ficaram, restou uma sensação de surpresa e alívio. Mas não de arrependimento, porque afinal, o que fizeram foi justo. Cegos pela certeza de que representavam o sumo bem, não hesitaram em oprimir um garoto pobre, preto e LGBTI+, desconsiderando a sua identidade e invalidando a sua trajetória. O cancelamento praticado contra Lucas no BBB foi uma verdadeira tortura psicológica e mostrou escancaradamente que mesmo quando fazemos parte de grupos historicamente oprimidos ainda somos capazes de reproduzir opressões, sobretudo quando acreditamos ter todas as respostas. É aí que nos tornamos insensíveis, autoritários e cruéis.

Olhando de fora e pensando sobre as várias dinâmicas que atravessaram esse momento tão turbulento, é possível ver que a justificativa do grupo para o cancelamento de Lucas é vazia e insustentável. A violência usada para silenciá-lo é resultado do desejo de calar vozes dissonantes que desafiam a primazia dos canceladores sobre temas candentes como o empoderamento das minorias, o racismo e a lgbtfobia. E por isso mesmo mais pareceu uma ação premeditada e executada com perfeição por gente que sabe que em um mundo polifônico, ganha quem gritar mais alto.

Na cabeça dos canceladores, isso era o certo a se fazer. É chocante, mas não é nenhuma novidade, e muito menos esta é uma violência restrita a gente dos movimentos e lutas sociais. Políticos, líderes religiosos, militantes, familiares, mas também eu e você, somos capazes de promover grande mal, especialmente quando estamos certos de que o fazemos pelo bem.  Mas se podemos causar sofrimento, também temos o poder de curá-lo, desde que saibamos nos reconhecer como seres complexos, feitos de sombra e luz. A compreensão das nossas limitações é a chave para empatia com o outro, pois como já cantava Chico César: “Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa… e da bondade da pessoa ruim.”